sexta-feira, 3 de abril de 2015

Solilóquio De Inverno / CINZA DOS OSSOS * Antonio Cabral Filho - Rj

CINZA DOS OSSOS
*
Solilóquio de Inverno

Tudo anda turvo.
Cigarras silentes,
Arbustos estáticos.
Há muito não noto
Formigas nervosas
No seu ir e vir
Nem os grilos silvam mais.

Tudo anda turvo.
Sapos aposentando pilões.
Não sei mais dos agouros da côa
E o bentivi não mais
Dedura ninguém.
Os cães nem ladram mais
Nas noites frias,
Não mais há bêbados
Cambaleando calçadas
Rumo ao incerto caminho de casa.

Tudo anda turvo.
Não mais se ouvem amigos
Falando alto na esquina
Contando histórias de amores furtivos
E mijando a saideira tomada agora há pouco.
Tudo anda turvo
E não basta dizer
Que tudo anda turvo.
A manhã vem rompendo,
Netuno acaba de soltar os ventos
E Vênus vem balançar os cachos
Rindo-se de mim
Com seu sorriso de Ninfa.

*

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